O Deus de Chifres é a personificação do Senhor das Florestas, da própria fertilidade, o agente que torna possível a fecundação e a renovação da vida. Sua mais antiga representação é a do Deus com chifres de alce, que encarnava o próprio espírito da floresta, o Senhor dos Animais, poderoso e indomável.
Nos primórdios da vida humana, quando as tribos ainda eram nômades, a busca por alimentos durante os meses de inverno era tremendamente difícil. Surge, então, a figura do caçador, que no inverno partia em grupos para assegurar a sobrevivência dos demais. É interessante notar que da prática da caça, exercida pelos homens mais valentes da tribo que, arriscando a própria vida, passavam muitas vezes semanas longe de casa, surgiu uma espécie de culto à divindade encarnada no próprio animal caçado. Esses caçadores primitivos acreditavam que o alce, o grande e temido animal selvagem, era a encarnação do Senhor da Floresta, e que vinha oferecer-se em sacrifício, doa a própria vida para o benefício da humanidade.
Dessa antiga crença, surgiu toda uma prática ritualística em torno do animal caçado. Ao ser abatido, ele era desossado. Seus ossos eram enterrados na floresta, devolvido ao seio da Mãe para que ele pudesse renascer no ano seguinte, assegurando a renovação da caça e a abundância de carne para a tribo.
É interessante como o culto ao Deus de Chifres está intimamente relacionado com o culto da Deusa, e não pode existir separado dele. Também bastante interessante aqui é que encontramos nesses ritos tão antigos os primórdios do conhecido mito do sacrifício divino, que se tornará o tema central de quase todas as religiões.
Com o passar do tempo, e o surgimento dos primeiros rudimentos da agricultura, introduzidos pelas mulheres através dos ritos centrados na Deusa, as tribos começaram a se tornar sedentárias. Nessa transição, da fase coletora para a da agricultura, surgiram as primeiras tentativas de domesticação de animais. Talvez um dos primeiros animais domesticados tenha sido o touro, que, além de ser excelente para arar a Terra, proporcionava ótima carne. Aqui, observamos uma significativa transformação da representação do Deus de Chifres, que passou a ser cultuado com chifres de touro. Isso ocorreu paralelamente ao início da Era de Touro, que assinalou o surgimento das primeiras religiões patriarcais.
Com o progressivo aumento da importância atribuída ao Deus, o prestígio dos caçadores também aumentou. Paralelamente, dois cultos coexistiram, aquele do Deus de Chifres dos caçadores e o da Deusa. Não se sabe em que época ocorreu a fusão dos dois cultos em um só, mas o certo é que isso pode ter acontecido mediante a união ou casamento entre o líder caçador, sacerdote do Deus de Chifres, e a sacerdotisa da Deusa. Da união desses dois cultos, surgiu uma mitologia e uma simbologia centrada nas polaridades sagradas, representadas pelo casal divino. A celebração do casamento entre os sacerdotes desses cultos espelhava a união mística e sagrada dos deuses, e os próprios sacerdotes eram tidos como portadores da energia divina na terra. Essa tradição se preservou durante milhares de anos, tornando-se um dos maiores festivais do paganismo, o Beltane, a época de vitalidade e da fertilidade, quando o Deus engravida a Deusa.
Mais tarde, quando as tribos e clãs se tornaram realmente sedentárias e a criação de animais domésticos torna-se um fator decisivo na economia e no fornecimento de alimentos, uma nova metamorfose teve lugar, quando o Deus passou a ser representado com chifres de bode. Tanto o touro quanto o bode encarnavam muito bem a essência viril e fértil do Deus, e séculos depois, divindades como Dionísio ainda possuíam tais atributos sexuais, que simbolizavam a renovação e a virilidade.
O Deus passa a ser o consorte da Deusa, porque, mesmo com o avanço do patriarcado, o simbolismo do Deus só pode ser compreendido através dela. Entretanto, além de seu consorte, ele é também seu filho, porque é por ela gerado. A Deusa é a terra fértil que tudo sustenta, e o Deus é o agente fertilizador que a engravida. Ele, como Senhor das Colheitas, é o grão colocado no seio da terra e que germinará no tempo certo, crescerá e será ceifado. Ele morre, mas assegura que a perpetuação da semente, que novamente irá impregnar o ventre da Deusa. A Deusa é eterna, ao passo que o Deus tem uma natureza cíclica.
Muitos antigos deuses devem ter tido sua origem no Deus de Chifres pré-histórico, e tanto Cernunos, Pã e Dionísio são deuses associados à terra, à vida selvagem e aos prazeres terrenos. Do mesmo modo, todos eles possuem, como a Deusa, três aspectos: o aspecto de deus da fertilidade e dos prazeres, da fecundidade e da proteção da vida e de ceifador e destruidor da vida.
Nos Mistérios ancestrais da Wicca, o ciclo divino representado pelo Deus está intimamente ligado à transformação, aos ciclos do reino vegetal, traduzidos em vida, morte e renascimento e que são a base do dogma wiccaniano da reencarnação.
Fonte: Wicca Gardneriana - Mario Martinez - Editora Gaia.
A CARGA DO DEUS
Eu sou o Rei radiante dos Céus,
inundando a Terra com calor e encorajando a
semente oculta da criação a brotar e se manifestar.
Ergo minha lança brilhante para iluminar a vida de todos os seres
e diariamente derramo meus raios dourados sobre a Terra,
afastando os poderes das trevas.
Eu sou o espírito de todas as feras, selvagens e livres.
Corro com o cervo e voo como um falcão sagrado contra
o céu cintilante.
As antigas florestas e os lugares selvagens emanam meus poderes,
os pássaros do céu cantam minha santidade.
Eu sou a colheita, oferecendo grãos e frutos sob
a foice do tempo para que todos sejam nutridos.
Pois sem plantio não pode haver colheita;
sem inverno não pode haver primavera.
Eu sou o Filho da criação com mil nomes.
Saiba que, por todos os nomes, eu sou o mesmo.
O espírito do cervo com chifres na natureza, a colheita infinita.
Veja no ciclo anual de festivais meu nascimento, morte e
renascimento e saiba que esse é o destino de toda a criação.
Eu sou a centelha da vida, o Sol radiante, o doador da paz e do repouso.
Envio minhas bênçãos para aquecer os corações e fortalecer as mentes de todos.
Pela chama que arde intensamente,
ó Cornífero!
Invocamos teu nome na noite,
ó Ancião!
A ti invocamos, junto ao mar guiado pela lua,
junto à pedra erguida e à árvore retorcida.
A ti invocamos onde te reuniste,
junto ao santuário sem nome, esquecido e solitário.
Vem onde a roda da dança é percorrida,
chifre e casco do deus pé de bode!
Pelo prado iluminado pela lua, na colina escura,
quando a floresta assombrada está silenciosa e imóvel.
Venha ao encanto da oração cantada,
enquanto a lua enfeitiça o ar da meia-noite.
Evoca teus poderes, que permaneces potente,
em riachos brilhantes e marés secretas.
Em chamas ardentes sob a pálida luz das estrelas,
em hostes sombrios que cavalgam o vendaval,
e pelos matos de samambaias, assombrados por fadas,
de florestas selvagens e bosques encantados.
Vem! Vem!
Ao tamborilar dos batimentos cardíacos!
Vem a nós que nos reunimos aqui embaixo
quando a ampla lua branca sobe lentamente.
Através das estrelas até o ápice do céu,
carregamos teus cascos no vento da noite!
Enquanto os galhos negros das árvores tremem e suspiram,
pela alegria e pelo terror conhecemos a noite.
Pronunciamos o feitiço que teu poder desvenda
no Solstício, no Sabá e no Equinócio.