(Foto: Tatuagem do clã Kalderash)
A cultura de tatuagem entre o povo Roma (muitas vezes referido como Romani) é diversa e carrega significados que vão desde a celebração da identidade e ancestralidade até a memória histórica de traumas. Diferentes subgrupos Roma (como os Caló, Sinti ou Lovari) podem ter visões variadas sobre tatuagens, influenciadas por suas crenças religiosas específicas (cristãs, muçulmanas ou hindus).
Símbolos Comuns e Significados
Para o povo Roma e na estética "cigana" tradicional, as tatuagens não são apenas decorativas, mas atuam como amuletos de proteção e marcadores de destino. Cada elemento carrega uma intenção específica, focada em elementos que representam o estilo de vida nômade e a conexão espiritual:
Roda Chakra: O símbolo oficial da bandeira Roma, uma roda de carroça com 16 raios, representa o ciclo da vida, a transformação constante e a jornada que nunca termina; a migração histórica da Índia, o movimento contínuo e a liberdade de viajar. Simboliza a resiliência: a ideia de que fases ruins são passageiras, pois 'a roda sempre gira'.
Punhal: Representa a proteção, coragem e corte de energias negativas. É usado para "abrir caminhos", simbolizando a vitória sobre obstáculos e a defesa da liberdade. Quando desenhado com moedas ou flores, indica prosperidade e força equilibrada com delicadeza.
Rosas e Flores: Simbolizam paixão, magnetismo pessoal e a beleza que floresce mesmo em solo difícil.
Trevo, Ferradura e Moedas: Símbolos de boa sorte, fortuna, abundância material e espiritual, usados para atrair caminhos prósperos durante viagens.
Lua e Estrelas: Simbolizam a conexão com a natureza e os ciclos nômades. A lua, em particular, está ligada à intuição feminina e à renovação.
A "Cigana" (Rosto Feminino): Essas tatuagens, chamadas de 'Old School' (tradicional americano), simbolizam sorte, intuição, independência e o espírito livre. O olhar da figura, frequentemente direcionado ao horizonte ou ao futuro, representa a clarividência e a capacidade de moldar o próprio destino. Geralmente homenageiam matriarcas.
Na cultura da tatuagem convencional, a imagem clássica de uma mulher com lenço na cabeça, joias pesadas e uma bola de cristal é amplamente conhecida como "tatuagem cigana". Embora esteticamente impactantes, essas imagens têm raízes em estereótipos antigos de espetáculos de variedades europeus e americanos, e não na autêntica cultura cigana. A arte corporal moderna inspirada na cultura cigana concentra-se principalmente em padrões geométricos culturais, brasões de família e na preservação da história oral.
Ancestralidade: Desenhos que homenageiam antepassados e preservam a história da família são fundamentais na arte corporal contemporânea dos Roma.
É importante distinguir as tatuagens culturais ciganas autênticas das tatuagens ocidentais "tradicionais americanas" ou da "Old School" ("ciganas"), que são representações estilizadas e romantizadas, criadas por pessoas de fora.
A principal diferença entre a arte cigana (romani) tradicional e a moderna está na transição do utilitário e comunitário para a expressão individual e política.
Enquanto a arte tradicional servia para a sobrevivência e identificação do grupo, a arte contemporânea contesta estereótipos e reivindica espaço nas galerias globais.
Arte Tradicional: Funcionalidade e Sobrevivência
A arte tradicional romani raramente era feita para exibição estática. Ela existia no cotidiano e nas profissões do povo.
Metalurgia e Forja: Criação de caldeirões, joias e ferramentas ornamentadas com técnicas transmitidas de pais para filhos.
Estética dos Vardos: Pintura decorativa manual e entalhes em madeira nos tradicionais vagões ciganos, exibindo status e identidade familiar.
Têxteis e Vestuário: Saias longas, lenços (diklo) e lençóis com cores vibrantes e padrões florais complexos que indicavam o status social e o subgrupo.
Arte Efêmera: Música, dança e contação de histórias orais como as principais formas de preservação histórica, sem registros físicos.
Significados Históricos e Políticos
As tatuagens também servem como marcadores de resistência e lembrança.
Memória do Holocausto (Porajmos): Jovens descendentes às vezes tatuam seus antebraços (área em que o povo Roma era marcado com números nos campos de concentração) com símbolos como o Chakra para honrar essa história de resistência.
Identidade cultural: Em um contexto de discriminação histórica, o uso de símbolos culturais em tatuagens funciona como uma afirmação de orgulho e visibilidade da identidade Roma.
A tatuagem é uma constante etnográfica em todos os povos ciganos, independentemente da tribo que se faça parte. As tatuagens são marcas para as quais se atribuem poderes. Geralmente tais marcas "talismânicas" são tatuadas nas mãos ou pés dos ciganos com
objetivo de identificação do clã, significado do nome e amuleto.
Assim, em qualquer lugar do mundo onde existam ciganos, independentemente do clã a que pertençam, as tatuagens nos corpos os identificam ou os distinguem entre si.
Os Roms passaram também a tatuar o nome do grupo (Natsia) nação ou povo o qual pertenciam, como forma de identificação e proteção. Apesar de haver nestes tempos, grande preconceito, muitos ciganos, por dominar esta arte, eram convidados a estar junto aos nobres da época, trabalhando também para gente do povo, nas praças e ruas das grandes cidades. A ornamentação da pele, ganharia, assim, cada vez mais adeptos entre os ciganos e os simpatizantes da cultura, os “ciganos de alma”. Usando seus próprios simbolismos, o povo Roma acredita que uma vez escrito (marcado) na pele, o signo deixa o corpo imantado, então passaram tatuar quem assim desejasse, era só escolher o símbolo correspondente para a imantação desejada.
Para os ciganos Kalderash, as tatuagens devem existir, para o homem, nas mãos, representando o trabalho, e para a mulher, nos pés, simbolizando o esteio, o alicerce da família. Na cultura cigana, a
mulher necessita do trabalho do homem, que por sua vez precisa de alicerce feminino.
Também são aceitas na nuca ou ao longo da coluna vertebral, como significado de nome, defesa, contra-feitiço. Um Manouche, por exemplo, tatua no braço. As demais Natsias e Vítsas (descendências), utilizam tatuagens em outros lugares, nos pulsos, nos braços, no peito, cada qual com o seu sentido e significado.
As tatuagens assumem diferentes significações de acordo com a natsia e vitsa a que o cigano pertence. Alguns usam a tatuagem como garantia de saúde e proteção, outros para afastar os maus espíritos, outros, como nós, anunciam pela tatuagem a nossa tribo e o nosso nome cigano. Outros usam a
tatuagem em memória de algum parente falecido que representa uma transição no ciclo de vida.
Tatuagem "Cigana" estilo 'Old School'
Os primeiros simbolismos utilizados para tatuar os não ciganos, foram os símbolos do horóscopo cigano. Depois as moedas, ícones entre os talismãs, que acreditam que ganham mais força próspera se imantada (tatuada) na pele, pela força de ser símbolo do poder material, e da capacidade de realização de riqueza em qualquer sentido, espiritual ou material.
Assim foi crescendo o uso desenhado de outros talismãs:
Cruz Ansata, Peixe - Só pode ser usado por homens, para que nunca falte dinheiro e coragem;
Coruja – animal sempre alerta e que nos faz assim também, além de nos favorecer com a capacidade de perceber tudo a nossa volta;
Punhal- Corta totalmente as forças negativas;
Ferradura - Atrai sorte, positividade e energias como o poder de superação;
Estrela de cinco pontas - Representa os cinco sentidos do homem, favorece os feiticeiros, magos e estudiosos de magia;
Gato - Símbolo da prudência e paciência;
Sino - É capaz de “tocar dentro de nós” para avisar o que vai acontecer, assim podemos nos preparar melhor;
Coração - Trás amor infinito e puro;
Chave - Para abrir as portas dos nossos sonhos e planos, resolução de problemas.
Os símbolos das cartas, tanto ciganas quanto do baralho comum, de pôquer, são também usadas.
Hoje as mulheres podem se tatuar (antigamente somente os homens podiam) e também lembrando as raízes ciganas hindus, tatuam com henna, para festa, os pés, braços, seios e costas.
Muitos Rom mantém a preferência pelos nomes de seus Clãs (Kalderash, Louvara, Kalon, etc) ou de Protetores Espirituais (Madalena, Carmem, Esmeralda, Sulamita, Natasha, Yasmim, Manolo, Wladimir, Wlado, Juan, Artêmio, Ramiro, Celina, Pablo, Salomé, Tizíbor, Paloma, Zaíra, Carmencita, Iago, Ramur, Íris, Ísis, Hiago, Katiana Natasha, Pedrovik, Sâmara, Ilarim, Katrina, Melani, Leoni, Wlavira, Bóris, Mirro, Nazira, Tamíris, Guadalupe e muitos outros), assim como a Bandeira Cigana.
