Normalmente o cigano
aprende a exercitar desde criança a sua intuição, das mais diversas formas, o
que muito o tem ajudado em sua sobrevivência. O povo cigano dá muito valor às
chamadas percepções extra-sensoriais que já estão incorporadas milenarmente à
sua cultura.
As crianças ciganas nômades crescem vendo seus pais e avós em volta das fogueiras1, ou dentro das barracas, lendo a sorte nas linhas da mão2 (quiromancia), nas cartas3 (cartomancia), na borra do café, numa taça de champanhe, no jogo de moedas, etc.
A par do pragmatismo que a dureza do
dia-a-dia os leva a ter, é também pela magia que os ciganos resolvem seus
problemas. Mesmo entre os sedentários e que já estão bem afastados das
tradições, as práticas intuitivas e mágicas ainda são bem valorizadas.
“O ritual místico dos
ciganos é completamente diferente da umbanda, do candomblé. É feito em
mandalas, com velas e pombos brancos vivos. E a nossa força está, acima de
tudo, na mente. O cigano faz o que ele quiser com a mente. Damos a maior
importância a fatos que nem todos valorizam. Para nós, Deus é uma força, uma
energia. Deus está em todos os lugares, inclusive dentro de mim”. (Niffer
Cortez, cartomante e bailarina cigana)
Os ciganos respeitam tanto
suas crenças, que evitam ser jogadores de baralho, porque isto traria mala
pajé (má sorte). Os ciganos também consideram de “mau agouro”: derramar
azeite, quebrar espelhos, espalhar sal, etc, e não dão, de jeito nenhum, fios
de cabelo às outras pessoas.
A magia cigana, de uma maneira mais abrangente, se baseia em dois pontos: o fogo e o som.
Este som pode ser o do violino, o de um violão, pandeireta ou, por exemplo, o tilintar de moedas. As entidades espirituais ciganas trabalham muito com o som. Através desta ou daquela sonoridade, provocam uma sintonia, uma vibração, de acordo com a energia que querem captar. Trabalham também com a borra do chá, do café e com areia, para a leitura das mãos. Preferem que seus rituais sejam feitos em maior contato com a natureza, isto é, ao ar livre, perto de plantas, mato, de preferência em noite de lua nova. Pedem sempre:
almíscar, frutas, flores amarelas, cigarrilhas, champanhe e os mais variados objetos de cobre (punhal, anel, recipientes, etc). O cobre, segundo dizem, é um metal que traz boas vibrações, servindo de aparato contra maus fluidos.
O cobre é um metal
importante para os ciganos por causa de seus trabalhos como artesãos,
caldeireiros, mas apresenta também uma importância mística, sendo uma espécie
de metal-amuleto. Usar adornos de cobre, além de enfeitar, serviria de anteparo
às energias negativas.
Há uma correlação entre o
brilho, a cor do cobre e a luz do sol. Aliás, o sol é uma fonte imprescindível
de energia e por isto é muito valorizado pelos ciganos, em nível material e
espiritual. Eles só trabalham com o cobre de dia, pois creem que se usarem o
cobre à noite, a tribo não progride.
O cigano valoriza o
trabalhar sob o sol, quando, ao suar, ele coloca toda a negatividade para fora:
a cada minuto há uma renovação física com o calor do sol.
À noite, sob a luz da lua,
há possibilidade de uma maior energia contemplativa, é a energia suave, a coisa
astral. O cigano está mais ligado, em termos místicos, à noite. Daí ele
praticar de noite coisas que elevam o espírito ou facilitam a comunhão entre
matéria e espírito: a dança, a música, o canto, a seresta.
O verdadeiro cigano vive
misticamente 24 horas por dia. O cigano não é cristão, não é filiado a nenhuma
religião. Jesus Cristo, para eles, é o filho da natureza. Eles reconhecem que
Jesus, neste sentido, é acúmulo de energias, e Deus, para o povo cigano, é uma
energia. Eles percebem esta energia em todas as coisas da natureza. Nela
reconhecem Deus. Então, o conceito deles é diferente dos cristãos que acreditam
na existência de um Deus com formas definidas, à semelhança de um ser
materializado.
Por que os ciganos furam as moedas
Os homens, de uma maneira
geral, não sabiam como trabalhar com o ouro nos tempos antigos. Só os ciganos
tinham esta capacidade. Eles eram hábeis e talentosos neste sentido. Cada tribo
tinha uma identificação pelo número de furos que continham as moedas. Além de
identifica-los, os furos nas moedas impediam que elas lhes fossem roubadas. À
época dos faraós, estes sequestravam os ciganos para que fizessem adornos de
ouro para eles.
A importância do número 4 para a cultura dos ciganos
Uma tribo, entre os
ciganos, só pode ser dividida em quatro outras tribos. Por exemplo, casam-se um
cigano e uma cigana, forma-se uma nova família, nascem os filhos... Então eles
podem se constituir numa outra tribo, mas que está ligada àquela de onde eles
se originaram.
São quatro as estações do ano, quatro os elementos da natureza (fogo, água, terra e ar).
O planeta Terra,
em termos de preservação do seu equilíbrio, só pode ser dividido em 4 partes. A
figura geométrica do quadrado representa, para os ciganos, o equilíbrio de
energias. Já o triângulo é um símbolo místico para os ciganos (o vértice é
virado para baixo ou para cima no sentido do que se quer obter, de acordo com
as crenças ciganas). O quatro, para o cigano, supre todas as necessidades (no
entanto, diz-se que o número sete é a base de todos os sinais secretos dos
ciganos). Os ciganos, por tradição (isto é, os nômades, os que preservam seus
valores culturais), não ficam num mesmo lugar por mais de quatro estações:
justamente o tempo da colheita. No período em que param de trabalhar,
aproveitam para se recompor em termos de energia.
Quanto ao nomadismo dos
ciganos, eles se locomovem porque, acima de tudo, respeitam a natureza,
caminham para cá ou para lá de acordo com a fertilidade da terra. Eles não
ficam o tempo todo num mesmo lugar, porque têm consciência de que a terra
precisa se refazer em termos de energia. Eles acampam na terra, sugam para si –
ao deitar seus corpos sobre a terra, ao colocarem suas carroças e tendas sobre
a terra e ao cultivarem a terra – a energia que a terra tem para lhes oferecer.
Mas chega o momento da partida, porque a terra também precisa ser renovada.
Para os ciganos, a natureza
é fundamental. Têm uma relação fraterna com ela. Se uma planta seca, murcha,
eles vão procurar saber o porquê disto, para tratar dela. Eles sabem que há uma
interação energética entre homens, plantas e animais. Eles têm conhecimento da
energia cósmica.
Em outros tempos, os
ciganos tinham entre os dedos dos pés (lugar bem escondido) uma marca, um
desenho, espécie de uma tatuagem, para identificar os países de que se
originavam. Assim, o cigano da Espanha tinha um desenho, o da Índia, outro
desenho, etc.
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¹Os ciganos muito se
orgulham do domínio e o culto do fogo que faz parte de sua cultura.
²A mão que se lê é a
esquerda, pois simboliza o lado espiritual. A mão direita, que é a parte
material, serve somente de apoio e recurso, no caso de uma dificuldade qualquer
da leitura da mão esquerda. Também é importante apalpar bem as mãos da pessoa, porque
só assim se pode captar melhor os fluidos que ela traz consigo. Segundo Bôri
Martinez, cigano Kalderash, é mais raro, mas também podem haver alguns homens
ciganos lendo a mão.
³Segundo Niffer Cortez, a carta do cigano é, em verdade, o baralho comum, e não o Tarot, embora diversas fontes afirmem que os ciganos tiveram o primeiro contato com o Tarot na França e a partir daí o utilizaram como um ofício, incorporando-o às suas tradições. Mesmo que a origem do Tarot não seja cigana, a utilização cartomantica das figuras é, certamente, obra sua.
Bibliografia:
PEREIRA, Cristina da Costa. Povo Cigano. Rio de Janeiro, 1985. Gráfica Mec Editora.
OS CIGANOS E O TAROT
Em
suas carroças onde a música dos violinos enchia o ar de sensualidade, os
ciganos de Andaluzia, da Sicília, da Galícia, vinham trazer a velha magia das
cartas.
Muitas
vezes perseguidos, escorraçados, famintos, pelas estradas européias, os ciganos
continuaram a fazer seus ritos de amor, a ler o destino pelas cartas e pelas
linhas das mãos.
Quando
desembarcavam, era hora de alegria. Dança, canto, batidas de solas e
castanholas, eram sua rotina. E o famoso baralho de seus ancestrais era o seu
maior segredo.
Entre
os ciganos, os cetros do Tarô são chamados de Paus; os corações, de Copas, os
sabres, de espadas, e as moedas, de Ouros. Neste baralho, a mulher apaixonada é
a Dama de Ouros. O amante, o Rei de Ouros. As cartas pretas indicam rompimento
de casos de amor. O Valete de Ouros é um amante adorado. As damas negras
indicam amantes na vida da pessoa amada.
Interpretação de Madame Zíngara
Para
Zíngara, as cartas que se referiam ao homem, no amor, são: 1,0,6,15,7,9 e 12 (o
mago, o bobo, a tentação, o diabo, o ermitão, o carro, o enforcado).
O
segundo grupo de sete cartas se refere a Deus: 2,3,4,5,14,11 e 8 (a
sacerdotisa, a imperatriz, o imperador, o hierofante, a força, a justiça).
O
terceiro grupo de sete cartas refere-se a Natureza, indicam o local ou a hora
dos encontros: 19, 18, 17, 16, 20, 10, 13. Seus nomes são o sol, a lua, a
estrela, a torre, o juízo, a vida, e a morte.
Nenhum
dos três grupos contém a carta “O Mundo”, que diz o que todas as demais
reunidas falam. Contém dentro de si todas as outras.
Dias positivos para ler a sorte nas cartas
Entre os sete dias da semana devem-se escolher as sextas-feiras e
o sábado para lermos as cartas sobre as questões de namoro, amor ou casamento.
Sábado, dia de cerimônias ocultas, está sobre a proteção de Saturno. E Vênus,
planeta do amor, também rege estes dias. Assim, é bom ler as cartas nesses dois
dias propícios ao amor sensual.
Vênus,
divindade do amor, Carmona, Ísis do Egito, estão ligadas aos dias de sexta e
sábado. E estão ligadas às cartas A Grande Sacerdotisa e A Lua.
Na véspera de S. Pedro e São João deve-se pôr as cartas para o amor também.
Jamais se deve tirar as
cartas na sexta-feira santa, ou em dias santos. Às terças e quartas-feiras
deve-se pôr as cartas para assuntos que envolvam dinheiro, diziam os ciganos. E
afirmavam: “Para saber sobre questões de dinheiro, deve-se, ao abrir o baralho,
colocar sete moedas de cobre sobre a mesa, a fim de atrair a força do dinheiro
para o nosso destino”.
Para
se ler a sorte à moda dos ciganos, deve-se antes colocar uma rosa vermelha na
mesa onde será feita a leitura, um copo de água com perfume, e chamar pelos
espíritos ciganos.
Método de Ísis
Consiste em tirar do baralho apenas sete cartas e interpretá-las,
pois o número sete sempre foi um número misterioso, aparecendo em todas as
civilizações.
Método de tirar as cartas pelos ciganos
Embaralham-se
as cartas, depois divide-se o baralho em três montes. O primeiro monte diz
sobre a vida do consulente, o segundo diz o que está fazendo o inimigo do
consulente, o terceiro fala do imprevisto.
Método dos boêmios para ler as
cartas ciganas
Embaralha-se
todas as cartas, viradas para baixo, pensando no que se deseja descobrir.
Divide-se o baralho em seis montes. O primeiro monte indica as questões da vida
humana, relativas ao temperamento do consulente, sua personalidade, seu corpo,
seus costumes. O segundo
monte revela sua fortuna, sua pobreza, suas posses, seus bens, mesmo que ainda
por serem adquiridos. O terceiro, suas possíveis venturas amorosas, seu amor
atual, separação ou vida familiar feliz. O quarto indica doença, saúde física.
O quinto fala de seus inimigos ocultos ou revelados, o que fazem, como estão
maquinando. O sexto confirma as suas amizades, a sua vida social.
Este
método está em desuso hoje em dia, pois alguns montes levam três cartas, e
outros, quatro cartas, e muitos crêem mai na leitura pelas sete cartas tiradas
do baralho. O sete é mais cabalístico do que o número seis, talvez por isso o
outro método seja mais usado.
Método da tirada em cruz, com 5 cartas
Embaralha-se as cartas, manda-se o consulente cortar e que retire
cinco cartas. Faz-se a cruz. A carta do lado esquerdo revela a afirmação sobre
a saúde, uma carta na parte superior da cruz revela sobre coisas de juízo, a
segunda carta, no meio da cruz, sintetiza a leitura. A terceira carta, no final
da cruz, revela o que os espíritos ciganos estão avisando. A carta do lado
direito revela os aspectos negativos da vida.
Maneira de ler as cartas pelo cigano andaluz
Neste método não se usa a disposição em cruz, e sim na forma de estrela. Isto é, coloca-se as cartas em forma de estrela de seis pontas; logo, seis cartas são retiradas do baralho e colocadas em forma estelar. Este método serve para prever amores e atos ligados ao sexo.
Método de sabermos a fidelidade do amor pelas cartas ciganas
Retira-se do
baralho a carta A Lua. E com ela faz-se a reza para o amor, feita com folhas de
louro. Com um raminho cruzamos a carta e rezamos a invocação a Hecate, deusa da
lua:
“Vem imortal amante, rainha do céu. Hécate luminosa, vem me ajudar. Pela força da deusa branca que se espalha pelos caminhos, pela força da rainha das encruzilhadas enluaradas, das luzes que iluminam a noite, vem, ó rainha do luar, e revela-me se meu amado (nome) é fiel”.
A seguir, pega-se o baralho e
retira-se duas cartas, uma é colocada à direita da carta A Lua; a outra é
colocada à esquerda. Se as cartas que saírem ao lado da Lua forem positivas, o
amor nos é fiel. Caso contrário, o nosso amor nos trai.
Dentre as magias que envolvem a Deusa da Lua, temos esta que é antiga e bela:
Fazei uma estátua de
madeira bem aplainada, com a raiz de arruda. Ornai-a com flores, da terra e do
sol. Machucai a mirra, perfumai com incenso e misturai tudo isso com guiné e
espada-de-são-jorge. Construí um pequeno templo em sua casa, junto a uma
árvore, e deixai lá a estátua poderosa. Durante o sono, vereis a quem amais e
com quem sereis feliz.